Opinião

Casas caras, sermões baratos

No dia 14 de novembro, quero estar na manifestação pela habitação, em Ponta Delgada. Não tanto por mim: vou-me amanhando, tenho uma vida confortável e alguns pequenos luxos. Quero estar por quem já sente que a vida custa a dar e, sobretudo, pelos meus filhos. Gostaria que pudessem progredir e, se assim o desejarem, viver na cidade que os viu nascer.

Ouço frequentemente que os jovens não querem trabalhar, preferem viagens, telemóveis e boa vida aos sacrifícios que os outros fizeram. E que antigamente se comprava casa com salários mais baixos e juros mais altos. É uma explicação tentadoramente fácil, sobretudo numa terra conservadora como a nossa. Mas será verdadeira?

Em 2000, um T2 de 110 m², comprado em planta na Urbe Oceanos, custava 125 mil euros. Em 2004, comprei um T1 de 80 m², no Paim, por 100 mil. Não esqueço esses números pois foi a minha primeira grande decisão financeira. Não eram trocos. Nem então a vida era fácil.

Para comparar épocas, prefiro o salário mediano ao médio. Imagine cinco trabalhadores: quatro recebem mil euros e um recebe seis mil. A média é dois mil, mas a mediana é mil. Diz-nos mais sobre a vida de quem trabalha.

Em Ponta Delgada, o ganho mediano mensal bruto rondaria, por estimativa, 500 euros em 2000 e 610 em 2004. Em 2024, era de cerca de 1.144 euros. Para 2026 não existem dados oficiais, admitamos, por estimativa, 1.270 euros. Os salários subiram. E as casas?

Aquele T2 tem hoje um preço indicativo de 360 mil euros. Um T1 de 80 m² no Paim foi anunciado por 300 mil. São indicativos, não avaliações dos mesmos imóveis. E convém descontar a inflação: 125 mil euros de 2000 equivalem hoje a cerca de 220 mil e 100 mil de 2004, a 154 mil. Mesmo assim, a diferença é expressiva.

E os juros? Em 2000 rondavam os 6,5%, já em 2004, os 3,5%; hoje, os 3%. Simulemos empréstimos de 90% do preço, a 30 anos. O T2 de 2000 teria uma prestação mensal de 711 euros, superior ao salário mediano estimado. O T1 de 2004 implicaria 404 euros, cerca de 66% desse salário. Hoje, se fosse possível financiar 90% de um T1 de 300 mil euros, a prestação rondaria 1.138 euros, que é quase 90% do salário mediano estimado. São simulações, não contratos reais. Com aquele salário, dificilmente o banco aprovaria o crédito. Com dois salários, o esforço diminui. E é justo reconhecer que os juros tornavam certos empréstimos antigos particularmente pesados.

Mas o obstáculo começa antes da prestação. Para o meu T1, uma entrada hipotética de 10% em 2004 seria de 10 mil euros. Hoje, alguns bancos financiam até 90%, mas outros ficam pelos 80% ou 85% da avaliação. Num apartamento de 300 mil euros, isso pode obrigar a ter 45 a 60 mil euros de entrada, antes de eventuais impostos e despesas. Se a avaliação for inferior ao preço, poderá ser ainda mais. Poupando 200 euros por mês, são quase 19 a 25 anos para reunir esse dinheiro. Há uma garantia pública que permite a alguns jovens financiar até 100%, mas não dispensa a capacidade de pagar ao banco.

E onde viver enquanto se poupa? Em Ponta Delgada, a renda mediana anunciada de um T1 rondava 979 euros mensais em 2026, cerca de 77% do salário mediano bruto que estimámos. Antes dos descontos, da comida, da luz e das restantes extravagâncias a que chamamos viver.

Talvez seja, afinal, culpa dos telemóveis caros.

Não retiro mérito à geração que trabalhou, poupou e pagou juros elevados. Conheço esses sacrifícios. Mas reconhecer o esforço de uns não obriga a julgar os outros. A crise da habitação não se resolve com lições de moral. Exige oferta acessível, reabilitação, investimento público e rendas compatíveis com os rendimentos.

No dia 14, quero lá estar, sobretudo pelos meus filhos. Não para que tenham uma vida sem esforço, mas para que o esforço lhes permita construir uma vida.

Uma casa não se compra deixando de comprar um telemóvel. E muito menos com sermões.